Cabo Verde na UE à boleia turca
Iniciativa de Soares e Adriano Moreira não suscita o entusiasmo de Belém e São Bento
"O critério para a adesão é a identidade cultural", diz Adriano Moreira, apontando a Turquia como exemplo
Mário Soares e Adriano Moreira lançaram ontem, em Lisboa, uma petição pública para a adesão de Cabo Verde à União Europeia, sublinhando que o alargamento da UE não pode ignorar a dimensão atlântica do continente.
Ao seu lado, numa cerimónia que decorreu na Sociedade de Geografia, estavam pessoas tão diferentes como o padre Vítor Melícias e o general Silvino Silvério Marques, sem esquecer embaixadores como Leonardo Mathias ou Francisco Knopfli, além de Carlos Monjardino, Medina Carreira, Maria de Jesus Barroso ou o almirante Vieira Matias.
Quase todos subscritores de um movimento de pressão que emana da sociedade civil, como o ex-Presidente da República fez questão de sublinhar, e ao qual se juntam muitas outras personalidades que também já se associaram à iniciativa, como Adriano Moreira deu a conhecer Adriano Pimpão, José Barata-Moura, Maria José Ferro, Rui Alarcão, Barbosa de Melo, Carvalho Guerra, Emílio Sachetti ou Miguel Anacoreta Correia.
Entre os apoiantes desta petição, há, contudo, dois nomes que poderão ser susceptíveis de causar algum embaraço às autoridades portugueses Diogo Freitas do Amaral e Laborinho Lúcio. Sobretudo, se Portugal não vier, como tudo indica, a assumir a defesa da adesão cabo-verdiana no plano da União Europeia.
Tudo porque Diogo Freitas do Amaral, que há várias semanas se comprometera com a iniciativa, assumiu, entretanto, a tutela dos Negócios Estrangeiros no Governo de José Sócrates. Já Laborinho Lúcio representa, neste momento, o Presidente da República na Região Autónoma dos Açores.
Questionados pelo DN sobre esta matéria e sobre o conteúdo de uma petição que deverá ser posteriormente entregue em Belém e na residência oficial de São Bento, tanto o Presidente da República, como o primeiro-ministro optaram por não fazer quaisquer comentários, preferindo aguardar pelos acontecimentos. Mas fonte próxima de José Sócrates não deixou de referir que esta petição decorre de uma iniciativa da sociedade civil, devendo ser tratada como tal.
Factores potencialmente geradores de alguma de polémica, mas que passaram à margem da cerimónia e que não constam, naturalmente, de uma petição que assenta o essencial da sua argumentação nos laços históricos e culturais que prendem os cabo- -verdianos à Europa.
"Cabo Verde", lê-se no documento que foi posto a circular por todo o País, "interessa à Europa não apenas pela valência da segurança e defesa, mas também, e antes disso, por ser a melhor expressão das sínteses culturais que a experiência euromundista produziu", constituindo, como tal, "uma plataforma excepcional para a relação Euroafricana".
Razões mais do que suficientes para levar os seus subscritores a solicitarem a intervenção e o apoio activo de Portugal, contando, desde já, com o beneplácito e a anuência das autoridades de Cabo Verde.
Como Mário Soares explicou durante a apresentação pública da petição, e como a presença de Onésimo Silveira, o embaixador cabo-verdiano em Portugal, deixava já depreender.
Confrontado pelo DN com o facto de o Tratado da União Europeia excluir, expressamente e à semelhança do que irá ocorrer com a futura constituição Europeia, a adesão de qualquer Estado não europeu à UE, Adriano Moreira aponta o exemplo da Turquia, como forma de contornar quaisquer obstáculos jurídicos.
"A chave desta questão é a identidade cultural", frisou. "É esse o critério da adesão. E nesse contexto, Cabo Verde também é Europa", acrescentou, numa alusão aos laços históricos que unem os cabo-verdianos e europeus. "Senão como justificar a entrada da Turquia na UE?"
Armando Rafael

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