"Somos os flagelados do vento leste"Morremos e ressuscitamos todos os anos/para desespero dos que nos impedem/a caminhada/Teimosamente continuamos de pé/num desafio aos deuses e aos homens…

Quinta-feira, Maio 12, 2005

"Cabo Verde pretende ir o mais longe possível no relacionamento com a Europa"

Além de uma parceria privilegiada com a União Europeia, o primeiro-ministro cabo-verdiano não exclui a hipótese de uma futura adesão à NATO, pois "a posição geoestratégica" do seu país "é fundamental para o futuro da Europa, dos Estados Unidos, de África e das Américas".
Desde que tomou posse em Janeiro de 2001, o primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, terá feito pelo menos cinco visitas oficiais a Portugal, e outras tantas privadas, em passagens por Lisboa. Essa frequência "reflecte a importância que atribuímos ao nosso relacionamento com Portugal", explicou numa entrevista ao PÚBLICO.
Cabo Verde poderia tornar-se membro da NATO?
[Este processo] poderá levar a isso. Mas neste momento, queremos começar um caminho com a aproximação à NATO. Estamos a trabalhar essas questões [adesão à NATO e parceria com a UE] em conjunto.
Esse estatuto especial na UE contemplaria a adopção da moeda única europeia?A economia cabo-verdiana, neste momento, é uma economia "euroizada" porque temos a paridade fixa [do escudo cabo-verdiano] com o euro. Não haveria muitos problemas na introdução do euro. Não excluímos essa possibilidade. É uma questão que vamos estudar e que procuraremos consensualizar no país.
Mas a questão de um tipo de adesão à UE não é totalmente consensual no país.
É claro que nessa questão deve haver um debate aberto com forte participação dos cabo-verdianos da diáspora e dos que residem no país. E se for necessário um referendo, haverá toda a abertura para que ele se realize.
Na lista dos projectos de investimento aprovados para Cabo Verde vêem-se quase exclusivamente actividades ligadas ao turismo. Pode Cabo Verde viver quase exclusivamente do turismo?
O turismo é um dos motores de crescimento. Há o turismo e há a indústria ligeira voltada para a exportação. São dois sectores que poderão ser motores de crescimento. Mas há outros sectores importantes, como os transportes aéreos e marítimos. Queremos transformar Cabo Verde num centro principal de passageiros e cargas na região do Atlântico, como uma grande porta de entrada para África. E queremos que Cabo Verde se transforme numa importante praça financeira. Estamos a trabalhar neste sentido e também no domínio das novas tecnologias de telecomunicações e informações.
Mais de 80 por cento do Orçamento do Estado é financiado por recursos externos. Continuará Cabo Verde a viver tão dependente do exterior?
Cabo Verde é muito dependente da ajuda externa. Mas estamos num processo de transição, de passagem de País Menos Avançado a País de Desenvolvimento Médio, que será concluído em 2008. Com essa mudança, haverá uma redução substancial da ajuda. Passaremos de um modelo de desenvolvimento apoiado na ajuda para um modelo ancorado na competitividade da economia. É esse o principal desafio.
"O tráfico e a criminalidade são as maiores ameaças à segurança nacional" Ao estar entre os três países com maiores níveis de desenvolvimento humano da África Subsariana, Cabo Verde é visto como um modelo e um potencial destino de investimento. Ao mesmo tempo, há sinais de que a criminalidade organizada disparou, o que para José Maria Neves já está a ser "estancado" pelo Governo.
Contabilizaram-se 16 homicídios, desde Janeiro, numa frequência nunca antes vista. O que explica este fenómeno no país? O aumento dos homicídios tem a ver fundamentalmente com o narcotráfico e toda a criminalidade conexa. Narcotráfico que é transnacional. Muitas vezes, os grupos são organizados em vários países e o homicídio é mais um ajuste de contas entre grupos sediados na Europa ou na América Latina. De todo o modo, o tráfico de estupefacientes e a criminalidade são as maiores ameaças à segurança nacional. Mas temos de ter em conta que o Governo começou a agir em relação a esses grupos organizados. Aprovámos a lei contra o branqueamento de capitais, reforçámos a polícia judiciária, estamos a instalar os serviços de informação da República e a tomar medidas de prevenção. Estamos a esclarecer os casos e a dar duros golpes nessa criminalidade. É uma preocupação importante do relacionamento com a Europa.
Portugal e Espanha, por exemplo, são países de destino desse tráfico.
Por que está Cabo Verde tão desprotegido?
Há uma reduzida fiscalização das águas, que necessita de muitos meios, pois temos uma grande área costeira. Esta será uma área importante de cooperação com Portugal. Vamos ter um encontro ao mais alto nível, este mês, para estabelecermos a parceria.
Mas devo dizer que não há um ambiente generalizado de insegurança. Há esses homicídios e há uma acção muito forte para a punição dos seus responsáveis.Estamos em crer que já estamos a estancar esse processo com as últimas prisões. Cabo Verde continua a ser um país seguro apesar de esses dados prejudicarem o ambiente de segurança existente no país.
Entrevista concedida pelo PM José Maria Neves
8/05/2005